
22/02/2006 23:20
Outro texto um pouco longo,
mas que mais uma vez, valerá
a leitura até o final...
DESAPOSENTADO, GRAÇAS A DEUS!
Ele chegou à praça com uma marreta, endireitou a estaca
de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta,
amarrou a muda na estaca e se afastou como para olhar
uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos.
Minha mulher.
- Ah... O senhor quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura.
Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer
jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí,
olha que beleza, já está toda enfolhada.
De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe.
Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta
e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado.
Foi podando e explicando:
- Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar
e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido
de bateria.
Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria
pra matar, pra árvore não encobrir a fachada da loja?
É, aí fica com a loja torrando no sol.
Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas
em redor do arbusto.
- É bom pra terra, tudo que sai da terra deve
voltar pra terra.
Mas então.
Eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar.
Botando bermuda e chinelo e ficando em casa diante
da televisão.
Ou indo no boteco pra beber cerveja, depois dormindo de tarde. Engordando...
Até que acabam com derrame ou enfarte, de não fazer nada
e ainda viver falando de doença.
Cortou umas flores, fez um ramalhete:
- Pra minha menina.
A Alice.
Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina
quando levo flor.
Ela também é desaposentada.
Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira
a fazer doce com pouco açúcar e salgados com os restos
dos legumes que antes eram jogados fora.
E ajuda na creche também, no hospital.
Ih, a Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa
de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença.
Amarrou o ramalhete com um ramo de grama,
depositou com cuidado sobre um banco.
- Prá aguar as mudas eu tenho que trazer
o balde com água lá de casa.
Fui na prefeitura pedir pra botarem uma torneira aqui.
Disseram que não, senão o povo bebe água e deixa vazando.
Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado
que eu cuido.
Falaram que não.
Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode.
Sorriu, olhando a praça.
- Aí falei: então posso cuidar da praça mas não
posso cuidar de uma torneira?
Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização
pra cuidar da praça.
Nem falei mais nada.
Vim embora antes que me proibissem de cuidar da praça...
Ou antes que me fizessem encher formulário em três vias
com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui
desde que desaposentei.
Ta vendo aquele pinheiro fêmea ali?
A Alice que plantou.
Só tinha o pinheiro macho.
Agora o macho vai polinizar a fêmea
e ela vai dar pinhões.
- Eu nem sabia que existe pinheiro macho
e pinheiro fêmea.
- Eu também não sabia, filho.
Ih, aprendi tanta coisa cuidando dessa praça!
Hoje conheço os cantos dos passarinhos,
as épocas de floração de cada planta,
e vejo a passagem das estações como
se fosse um filme!
- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, heim?
Falei olhando a pinheirinha, ainda da nossa altura,
mas ele disse que não tem pressa.
- Nossa neta também é criança e eu já falei pra ela
que é ela quem vai colher os pinhões.
Sem a prefeitura saber, né...
e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher,
deve plantar pelo menos um pinhão em algum lugar.
Assim, no fim da vida, ela vai ter plantado
um pinheiral espalhado por aí.
Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem
criar um imposto pra quem planta árvores...
Falei que é admirável ver alguém com tanta idade
e tanta esperança, e ele riu:
- Se é admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso.
E agora dá licença que eu preciso pegar a Alice
pra gente caminhar.
Vida de
desaposentado é assim: o dinheiro é curto,
mas o dia pode ser comprido, se a gente
não perder tempo!
Trecho de autoria de Domingos Pellegrini,
publicado na GAZETA DO POVO,
de 22/05/05
"...me digam, não é para reverenciar
um ser humano desta grandeza?"
Quanta lição!!!
Vivian
http://mundomagicodavivian.zip.net
enviada por Vivian
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Mulher de alma madura, apreciadora de todas as coisas que lhe tragam paz interior. Not�vaga por natureza, ama a cia da Lua. Um esp�rito livre de pre-conceitos in�teis, por isso caminha por onde bem quiser.
Devoradora de bons livros. Amante da medita��o, pois adora olhar-se pra dentro, e dominar a paz reinante. Gosta da natureza, gosta de gente, ama vasculhar almas, para com isso se auto-conhecer, acreditando na multiplicidade do ser.
Essencialmente seletiva, sincera e amiga, sempre pronta para ouvir, e ou aconchegar. Fala pouco, e ouve muito. Bem humorada por natureza, porque acredita que a vida foi feita para curt�-la, e n�o deixar que ela nos curta com tristezas. Amante do mar e seus mist�rios, e sobre ele, tamb�m rabisca alguns escritos, brincando com as palavras sem pretens�o de louvores.
Enfim... Uma mulher de bem com a vida, que adora viajar o mundo via mouse sem tirar o pijama...
Gosta muito desta frase:
"Sou um ser espiritual vivendo uma experi�ncia humana. N�o um ser humano vivendo uma experi�ncia espiritual"
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